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Caneças - as Lavadeiras

"Mê ofício é lavadeira
Mê amor é aguadeiro
Ele vai vender a água
Eu vou entregar a roupa
Para trazer o dinheiro"

Actividade ancestral das mulheres deste lugar.

Constituíram, durante grande parte do Séc. XX,  um importante contributo para o sustento das suas famílias e ocuparam lugar de destaque no, já então, significativo número da mão-de-obra feminina, a par das enchedeiras de bilhas de barro e das mulheres que trabalhavam na lavoura. Fizeram parte de uma certa revolução de hábitos e costumes, pelas oportunidades que o ofício que exerciam lhes proporcionava, no contacto com outros meios sociais, em resultado das
Lavadeiras em Caneças (recolhido em www.elsinore.com) regulares deslocações à capital.

Com o mérito que lhes é reconhecido, tratavam com esmero a roupa que recolhiam em Lisboa e arredores, devidamente registada no "rol", procedendo à lavagem e secagem desta, (ao Sol, "a corar"), junto das ribeiras, dos rios ou nas almácegas (do árabe: almostanca, tanque).

 O crescimento desta actividade fez surgir os característicos lavadouros, uns públicos (como os que ainda existem nas Fontainhas e no Lugar d'Além) e outros privados, onde as lavadeiras, por sua conta ou sob a orientação de outrém, procediam à lavagem das peças de roupa. Estes lavadouros localizavam-se em regra junto a presas de água, rios ou ribeiras, aproveitando-se uma vez mais as condições naturais destes lugares. Vale de Nogueira, Alto da Cruz, Fonte Santa, Lugar d'Além, Fontainhas, Ribeira de Caneças, Rio da Água Quente, Rio da Lapa e Campos de Caneças são apenas alguns dos exemplos.

 Após uma semana dedicada ao trato da roupa, as lavadeiras entregavam-na,
embrulhada nas famosas trouxas, utilizando o dorso de animais, as carroças ou as galeras de tracção animal e, subindo Em direcção à capital (foto de - Arq.Fot. CML)dolorosamente a Calçada de Carriche, seguiam a caminho da baixa lisboeta. Mais tarde, com os melhoramentos na rede viária e o progresso automóvel, viriam a usar camionetas de aluguer.

Pouco a pouco, esta actividade foi desaparecendo, empurrada pelo 
progresso. A instalação de água canalizada ao domicílio permitiu a existência de tanques no interior das habitações e, posteriormente, máquinas de lavar roupa, levando as novas gerações a procurar outro tipo de ocupação.

Progressivamente, os lavadouros deixaram de ter a característica presença das lavadeiras, o que contribuiu decisivamente para a sua degradação e consequente desaparecimento, por via de melhoramentos entretanto realizados, do crescimento urbanístico ou simplesmente fruto do abandono.

Aldeia da Roupa Branca - o filmeFicaram imortalizadas no filme de Chianca de Garcia "Aldeia da Roupa Branca", protagonizado por Beatriz Costa, ela própria uma saloia do Milharado, povoação próxima da Malveira; a fita, uma comédia de época, de meados de 1900, retrata o quotidiano de um lugar saloio, conseguindo a caricatura perfeita de personagens típicas da região; os amores e desamores e as acesas rivalidades, ligadas precisamente à indústria da "Lavagem de Roupa Para Fora" são ali retratados, recorrendo à figuração dos locais e aproximando o mais possível a ficção da realidade. Quem não conhece o tema "Roupa Branca", que serve de enquadramento à acção inicial, cantado assim:

"Água fria, da ribeira
Água fria qu' o Sol aqueceu
Ver a aldeia, traz à ideia
Roupa Branca qu' a gente estendeu
Três corpetes e um avental
Sete fronhas e um lençol
Três camisas do enxoval
Qu' a freguesa deu ao rol"




Caneças

origem do nome

a água e as fontes

as lavadeiras

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